Cada vez que nos reunimos, de coração sincero, aberto ao encontro, acolhendo e nos deixando acolher, para refletir a vida, repensar nossos passos, os acontecimentos a nossa volta, para partilhar anseios, sonhos e esperanças, dividir as dores com o coração ardendo em desejar alegrias... Aí experimentamos ressurreição.
Ainda que o medo por um pouco nos domine. Dissera o poeta, para não perdermos a esperança: “Faz escuro, mas eu canto”. O caminho foi começado. E a vida só é vida se doada, partilhada. Experiência disso já a tivemos, e temos em cada nosso encontro. Podemos reconhecer: não estamos sozinhos!
As limitações que impomos, portas que se fecham, nossa humanidade exigente e prepotente, é superada pela força da presença do Eterno. Ele vem ao nosso encontro, põe-se entre nós, no meio de nós, de forma simples, mas intensa. E deseja-nos a paz. E nos manda ir fazer a paz acontecer.
Há um sopro, uma brisa mais que suave... Para quem quer ver sinais, há algo mais singelo? Porém pleno em significado, memória da criação, “Deus não parou de nos criar” e de dar a vida, para que levemo-la ao mundo.
Aquela igreja, gente reunida, comunidade, recebe o mandato de perdoar pecados. Per doar... Doar-se por... Aquela experiência que Paulo vai explicar dizendo “completo em minha carne...” (Col 1,24) a paixão, a entrega, a doação, a vida do Mestre. O sinal é simplesmente um sopro, que passa, mas que marca.
Pela primeira vez, o testemunho desta igreja: “Vimos o Senhor!” (Jo 20,25) Uma explosão de alegria e contentamento. Mas um dos nosso (ou nós mesmos?) precisa ver para crer...
Esta semana que vivemos, da Oitava da Páscoa, ficará por muito tempo na lembrança coletiva por conta da gravidade dos acontecimentos desencadeados pelas chuvas que assolaram o estado do Rio de Janeiro, associada a ressaca marinha. A natureza nos alerta e chama para uma nova consciência planetária. Cuidar da criação da nossa grande casa comum.
A negligência das lideranças, do governante que mistura gente com lixo, empurrando para os piores lugares os pobres, trabalhadores e trabalhadoras que buscam sobreviver enfrentando-se com o sistema que só os quer explorar.
E nós vimos...
Encontramos o Ressuscitado, o que precisa ainda ressuscitar! Em meio, às lágrimas, às dores, às dúvidas de quem não sabe o que fazer, aos que podemos ver e tocar, não mais com o lado aberto e as mão perfuradas, mas soterrados em meio a escombros, que perderam tudo o que tinha, sem lar, sem os seus queridos... “Onde sofre, chora, morre o teu irmão, Eu estou sofrendo, chorando, morrendo nele!” E a tantos e tantas que de tantas outras formas precisam e perseguem e buscam a paz que é fruto da Justiça, vida plena e em igualdade para todos.
É muito claro para nós ouvir do Senhor, no nosso tempo-espaço, “também Eu vos envio” (Jo 20,21). Fazer a ressurreição acontecer... “Um novo tempo, apesar dos perigos” e dos que matam e condenam à morte.
Para cada irmão tombado, nenhum minuto de silêncio, mas toda nossa indignação, toda nossa vida de luta, para que não mais haja diferenças entre ricos e pobres, homens e mulheres, brancos e negros, índios...
De agora para o futuro, crer para ver: Crer nas iniciativas de solidariedade, nos grupos de apoio e assistência, na organização comunitária, nos movimentos populares, sociais, de combate as opressões, na organização dos trabalhadores e trabalhadoras, nas comunidades de base que buscam na Palavra de Deus a força para construir a nova terra... E com esse sopro, vendaval que tudo há de transformar, ver a festa do Reino, a nova terra com pão repartido, sem primeiros e nem últimos...
Todos, ressuscitados então.
Nenhum comentário:
Postar um comentário