segunda-feira, 11 de novembro de 2019
Sou um cobrador!
Gosto de ouvir e saber o que as pessoas pensam a meu respeito.
Não tenho problemas com qualquer palavra sobre mim, por mais duras que sejam.
Isto não me isenta da reação imediata. Não sou impassível e nem tenho a pretensão de o ser. Reajo, rebato, discordo, me irrito por incompreendido. Mas ouço. A vida me levou a aprender a ouvir. E meus trabalhos tem aperfeiçoado isto.
O atendimento ao público, a complexidade que isto traz, é um grande cenário de possibilidades. E atender pessoas, ouvir suas histórias, os anseios, os problemas requer paciência e empatia. Em cada atendimento, me imagino como seria eu no outro lado do balcão, ou se fosse eu a buscar a solução de um problema ou buscando algum direito.
Depois a comunicação, produção de conteúdos e textos. Ouvir, pesquisar, ler, reler, revisar, traduzir... É preciso, em alguma medida sair de mim. Conhecer as histórias, perceber as nunces do discurso, a ideia que querem passar, sentimentos que procuram transmitir, não ferir o jeito do outro ser e escrever, não impor o meu estilo. Traduzir então... A experiência de tocar outro contexto sócio-cultural e trazer para outra língua e tornar aquilo acessível, num outro contexto, num outro tempo-espaço.
A música, tocar e cantar, a inspiração que tocou um compositor e que tenho de fazer tocar outras pessoas. Não é qualquer coisa. E lidar com emoções, fazer tocar emoções, se deixar tocar por sensações, sentimentos e dar espaço para que esta cadência flua...
E a pastoral. O desafiador espaço de ser cuidador de pessoas, Ser próximo, alguém que acolhe, compreende, não julga... Humanização radical. Naquela vida que se achega e se expõe, alegria, inquietações, por vezes, dores, frustrações... Sou humano, passo por tudo isto, nem sempre do mesmo jeito, não tenho respostas prontas, nem as quero ter. Então, é fazer o itinerário junto, ajudar a pensar – e me pensar. E me fazer buscador de esperanças, de sonhos, ser apoio e amparo. E não invadir, nem avançar além do que é permitido, ou do que é possível. E mais, ainda, ser sinal da presença do Todo Outro que é em nós.
E, ainda, a terapêutica, que é outro trato, outra jeito de se deixar ser abordado, tratar e cuidar a partir do que é dito, percebendo o não dito que é onde o que é se revela.
Num destes arremedos de conversas, que hoje estão cada vez mais comuns, pelas mídias sociais, e aos quais não me adapto bem ouvi que faço muitas cobranças. E, claro, fiquei pensando...
E este texto é minha confissão: sou um cobrador!
E vou me dando conta que preciso avançar muito em o ser para ser quem sou e o que quero ser.
Cobro presença, cobro inteireza, cobro empatia, cobro repostas (às vezes é só sim ou não mesmo, dar um retorno, não deixar sem resposta. Chamam isto, inclusive, de educação, mas eu não sei), cobro clareza (diga o que pensa e o que, ou como, se sente, deixa o outro fazer a experiência, tirar sua conclusão). E cobro ainda mais!
De quem gosto e, em quem acredito, cobro presença, respeito, reciprocidade (a possível! Não é sentir o mesmo ou na mesma intensidade, é, tão só, dar retorno, se expressar) e cobro verdade (a da outra pessoa, não a minha! Que se mostre. Não precisa ter certezas...).
Reconheço e sou grato.
Sou um cobrador!
E não estou cobrado pra mim. O que cobro é, na verdade, para quem cobro.
Porque é pra vida toda. E pra qualquer relação. Pra fazer bem a si e ao mundo. Pra experimentar relações verdadeiras.
Sou cobrador.
E se um dia te cobrei, ou se vier a a te cobrar, estou dizendo que me importo. E estou querendo que você se perceba, reflita sobre como se relaciona, que mensagem está passando.
E por favor, continua me dizendo como me sente, como minhas atitudes se afetam.
Assim, a gente se aproxima de empatia, reciprocidade... E constrói uma relação fundamentada em bem querer recíproco, amizade...
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